O iodo, um elemento essencial para a saúde humana, foi neglicenciado pela medicina moderna nos últimos 60 anos após a Segunda Guerra Mundial. Neste artigo, exploramos a história do iodo na medicina, sua descoberta como elemento vital e os métodos inovadores para medir sua suficiência no corpo.
Baseado nos trabalhos do Dr. Guy E. Abraham — ex-professor de Obstetrícia, Ginecologia e Endocrinologia da UCLA — esta compilação reúne três artigos fundamentais que resgatam o papel do iodo como Medicina Universal, um status que manteve por mais de 100 anos antes da Segunda Guerra.
📖 Parte I: A História do Iodo na Medicina – Da Descoberta à Essentialidade
A Descoberta dos Halogênios
A história dos halogênios — cloro, bromo, iodo e flúor — é marcada por descobertas científicas revolucionárias que moldaram a medicina moderna.
| Ano | Evento | Cientista |
|---|---|---|
| 1809 | Descoberta do cloro | Gay-Lussac, Davy |
| 1811 | Descoberta do iodo em cinzas de algas marinhas | Bernard Courtois |
| 1813 | Prova de que o iodo é um novo elemento | Gay-Lussac |
| 1826 | Descoberta do bromo | Balard |
| 1886 | Descoberta do flúor | Moissan |
Curiosidade histórica: Bernard Courtois, um fabricante de salitre (nitrato de potássio), descobriu o iodo acidentalmente ao adicionar excesso de ácido sulfúrico a uma suspensão de cinzas de algas. Os cristais de iodo formados foram analisados e, embora Courtois não tenha publicado seus achados, amostras chegaram às mãos de Gay-Lussac e Davy, que confirmaram a descoberta.
As Primeiras Aplicações Clínicas
O Tratamento do Bócio com Iodo
Em 1819, o médico suíço J.F. Coindet testou tintura de iodo (250 mg/dia) em 150 pacientes com bócio, obtendo sucesso em apenas uma semana. Seus resultados, publicados em 1820, marcaram o início do uso clínico do iodo.
A Relação entre Iodo e Bócio
Na década de 1850, o pesquisador Chatin estudou a correlação entre a prevalência de bócio e a concentração de iodeto no solo, água e alimentos. Suas observações foram claras:
- Bócio e cretinismo são raros em localidades ricas em iodo.
- Bócio e cretinismo são frequentes em localidades pobres em iodo.
- Suplementação com iodo é uma prevenção específica para o bócio.
O Iodo como Medicina Universal (1820-1940)
Durante o século XIX e início do XX, o iodo foi amplamente utilizado em preparações farmacêuticas. O crescimento foi impressionante:
- 1851: 10 preparações listadas em farmacopeias.
- 1956: 1.700 nomes farmacêuticos aprovados para produtos contendo iodo.
Aplicações Clínicas
O iodo era prescrito para uma ampla gama de condições, incluindo:
- Sífilis terciária
- Arteriosclerose
- Gota
- Bócio
- Hemofilia
- Doença de Bright (nefrite)
- Bronquite
Dosagem típica: 300 mg a 1.800 mg/dia de iodeto de potássio.
❝ Quando eu era estudante de medicina, o iodo na forma de KI era a medicina universal. Ninguém sabia o que ele fazia, mas fazia algo e fazia algo bom. ❞
A Descoberta da Função do Iodo na Tireoide
- 1895: Bauman detectou altas concentrações de iodo na glândula tireoide e propôs que o princípio ativo da tireoide continha iodo.
- 1915: Kendall (Clínica Mayo) isolou a tiroxina em forma cristalina.
- 1926: Harrington corrigiu a estrutura da tiroxina, identificando-a como tironina com 4 átomos de iodo.
O Declínio do Uso do Iodo: A Iodofobia
Em 1909, Theodore Kocher — ganhador do Prêmio Nobel de Medicina por seu trabalho em cirurgia da tireoide — relatou que sofria de hipertireoidismo após ingerir iodeto. Esse relato o tornou o mais famoso iodofóbico da história médica, levando-o a se opor ao uso de iodo/iodeto para todas as formas de hipertireoidismo.
Impacto na Prática Clínica: A influência de Kocher dividiu os clínicos em dois grupos:
- Grupo do Iodo: Favorecia o uso de preparações de iodo primeiro em hipertireoidismo.
- Escola Cirúrgica: Desencorajava o uso de iodo e recomendava apenas cirurgia.
Resultados clínicos ignorados:
- Clínica Biedl: 10% dos casos foram completamente e permanentemente curados, 40% ficaram totalmente livres de sintomas enquanto o iodo era administrado.
- Thompson et al. (1930): Taxa de sucesso de 88% com iodo sozinho.
- Starr et al. (1924): Taxa de sucesso de 92% com solução de Lugol (6 a 90 mg/dia).
🔬 Parte II: A Busca e a Descoberta dos Hormônios Tireoidianos
Os Primeiros Relatos de Hipotireoidismo
Em 1874, Sir William W. Gull publicou suas observações sobre 5 mulheres com hipotireoidismo, que ele chamou de mixedema associado a um "estado cretinoide". Os sintomas incluíam:
- Letargia progressiva
- Aumento generalizado de volume corporal
- Face arredondada (semelhante à lua cheia)
- Indiferença mental, mas intelecto preservado
Na época, a condição era considerada incurável e de etiologia desconhecida.
O Primeiro Implante de Glândula Tireoide
Em 1890, Betancourt (Lisboa, Portugal) relatou o primeiro implante bem-sucedido de glândula tireoide de ovelha em uma paciente com mixedema. Resultados observados:
- Melhoria imediata nos movimentos
- Fala mais natural
- Aumento da contagem de glóbulos vermelhos
- Elevação da temperatura corporal
- Redução do inchaço subcutâneo
- Normalização do período menstrual
A Descoberta dos Hormônios Tireoidianos
| Ano | Evento |
|---|---|
| 1891 | George R. Murray propôs que extratos de tireoide poderiam ser eficazes no hipotireoidismo. |
| 1895 | Bauman mediu grandes quantidades de iodo ligado a proteínas na tireoide. |
| 1915 | Kendall isolou a tiroxina em forma cristalina. |
| 1926 | Harrington corrigiu a estrutura da tiroxina para tironina com 4 átomos de iodo. |
| 1927 | Harrington sintetizou a tiroxina a partir de tirosina iodada (mistura racêmica). |
| 1949 | Chalmers desenvolveu um método para sintetizar L-tiroxina pura. |
| 1952 | Isolamento da L-triiodotironina (L-T3), 3-4 vezes mais potente que a L-T4. |
Detalhes da Síntese:
- Problema com a mistura racêmica: A D-tiroxina é 10 vezes menos potente que a L-tiroxina.
- Solução de Chalmers (1949): Proteção do grupo amino da tirosina por acetilação e do grupo carboxila por esterificação, resultando em um rendimento de 26% de L-tiroxina pura.
A Padronização dos Extratos Tireoidianos
- Antes de 1895: Extratos tireoidianos não eram padronizados.
- Após 1895: Extratos foram padronizados para conter 0,2% de iodo.
A Fraude dos Extratos Tireoidianos (1963)
Em 1963, um lote de tireoide dessecada foi distribuído para a Europa e EUA, mas não continha hormônio tireoidiano, apenas iodo. Consequências:
- Publicações falsas sobre a inconfiabilidade da tireoide dessecada surgiram antes que a fraude fosse descoberta.
- A iodofobia se espalhou, e a tiroxina sintética tornou-se a única opção aceitável para hipotireoidismo.
❝ A administração de tiroxina não alivia a névoa cerebral da privação de iodo. ❞
🧪 Parte III: Medição de Níveis de Iodeto Urinário por Eletrodo Seletivo de Íons
O Problema da Deficiência de Iodo
Segundo o NHANES III (1988-1994), 15% das mulheres adultas nos EUA são deficientes em iodo, com níveis urinários abaixo de 50 µg/L (padrão da OMS). Isso significa que 1 em cada 7 mulheres que entram em um consultório médico pode estar deficiente em iodo.
Problema atual: Médicos raro solicitam exames de iodo urinário, mesmo em pacientes com bócio simples e hipotireoidismo.
Evidências preocupantes:
- A deficiência de iodo está associada à doença fibrocística da mama (FDB) e câncer de mama.
- A administração de hormônios tireoidianos a mulheres deficientes em iodo aumentou o risco de câncer de mama.
- Há 40 anos, a proporção de risco para câncer de mama nos EUA era de 1:20. Atualmente, é de 1:8.
O Objetivo do Estudo
Desenvolver um método simples, rápido e acessível para medir níveis de iodeto urinário em consultórios médicos, usando:
- Eletrodo seletivo de íons (ISE) para quantificação potenciométrica.
- Cromatografia em resina trocadora de ânions para purificação prévia da amostra.
A Metodologia Inovadora
Princípio do ISE
O iodeto urinário é medido pela força eletromotriz (FEM) gerada no eletrodo seletivo de iodeto. Há uma relação linear entre o logaritmo da concentração de iodeto e a FEM gerada.
O Desafio do Cloreto
A concentração de cloreto na urina é 1 milhão de vezes maior que a de iodeto. O cloreto causa interferência significativa na medição direta de iodeto.
A Solução: Cromatografia com Resina SAX
Resina: Strong Anion Exchange (SAX) com base de estireno-divinilbenzeno (SDB).
Eluição: Uso de nitrato de sódio (NaNO₃) 5M para isolar o iodeto.
Vantagens:
- Elimina interferência do cloreto.
- Sensibilidade < 0,025 mg/L (adequada para deficiência grave).
- Baixo custo: Reagentes são apenas água e NaNO₃ (não tóxicos).
O Teste de Carga de Iodo
Objetivo: Avaliar a suficiência de iodo em todo o corpo humano (não apenas na tireoide).
Metodologia: Administração de Iodoral® (12,5 mg de iodo/iodeto por comprimido) e coleta de urina de 24 horas antes e após a ingestão.
📊 Tabela 1: Excreção Urinária de Iodeto em 5 Sujeitos (1 Comprimido/Dia)
| Sujeito | Sexo | Idade | Peso (libras) | Antes | Após 1 Dia | Após 30 Dias |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | F | 21 | 128 | 0,030 | 1,10 | 12,00 |
| 2 | F | 19 | 130 | 0,022 | 2,00 | 1,20 |
| 3 | F | 22 | 122 | 0,053 | 2,40 | 4,50 |
| 4 | M | 55 | 168 | 0,140 | 3,80 | 8,10 |
| 5 | M | 40 | 175 | 0,180 | 3,10 | 5,50 |
| Média | - | 31 | 144,6 | 0,085 | 2,48 | 6,26 |
Resultado: Após 1 mês, excreção aumentou para 36-96% da dose ingerida (média: 50%). Sujeito #2 excretou apenas 10% (menor nível basal: 0,022 mg/24h), sugerindo papel das glândulas mamárias na retenção de iodo.
📊 Tabela 2: Excreção Urinária em 6 Sujeitos (1, 2 e 3 Comprimidos)
| Sujeito | Sexo | Idade | Peso (libras) | Antes | 1 Comprimido | 2 Comprimidos | 3 Comprimidos |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | F | 42 | 171 | 0,160 | 2,70 | 4,90 | 14,00 |
| 2 | F | 51 | 113 | 0,067 | 2,60 | 5,30 | 9,90 |
| 3 | F | 42 | 110 | 0,064 | 3,10 | 6,00 | 6,80 |
| 4 | M | 51 | 160 | 0,250 | 2,60 | 6,30 | 11,00 |
| 5 | M | 63 | 199 | 0,110 | 3,30 | 6,50 | 7,70 |
| 6 | M | 70 | 200 | 0,093 | 2,50 | 5,40 | 7,50 |
| Média | - | 53 | 159 | 0,124 | 2,80 | 5,70 | 9,50 |
| DP | - | 20 | 20,5 | 0,047 | 0,14 | 0,35 | 4,60 |
Achado-chave: Com 3 comprimidos (37,5 mg), houve aumento de 10 vezes no coeficiente de variação (CV = 48,5%), sugerindo que o teste pode avaliar a suficiência de iodo no corpo todo.
Sujeito #3: Reteve mais iodo (apenas 6,8 mg ou 18%), sofria de FDB grave, reforçando o papel das glândulas mamárias na utilização de iodo.
Conclusões do Estudo
- O método ISE + cromatografia é específico, sensível e de baixo custo, adequado para uso em consultórios médicos.
- O teste de carga com 3 comprimidos de Iodoral® pode ser uma ferramenta útil para avaliar a suficiência de iodo em todo o corpo humano.
- A purificação prévia é essencial para eliminar a interferência do cloreto e outros ânions.
📚 Conclusão Geral
Os artigos de Guy E. Abraham e colaboradores resgatam a importância histórica e científica do iodo para a saúde humana.
- Parte I nos mostra como o iodo foi descobrito, utilizado e depois neglicenciado pela medicina moderna.
- Parte II detalha a descoberta dos hormônios tireoidianos e como a iodofobia afetou a prática clínica.
- Parte III apresenta um método inovador para medir a suficiência de iodo no corpo, com aplicações práticas em consultórios.
O iodo, outrora considerado a Medicina Universal, merece ser redescoberto e reintegrado à prática médica moderna.
Referências
- Abraham, G.E. "The History of Iodine in Medicine: Part I: From Discovery to Essentiality." The Original Internist, Primavera de 2006.
- Abraham, G.E. "The History of Iodine in Medicine: Part II: The Search for and the Discovery of Thyroid Hormones." The Original Internist, 2006.
- Abraham, G.E., Flechas, J.D., Hakala, J.C. "Measurement of Urinary Iodide Levels by Ion-Selective Electrode: Improved Sensitivity and Specificity by Chromatography on Anion-Exchange Resin." The Original Internist, Dezembro de 2004.