Saúde e Nutrição

Estudo sobre Iodo: A História, a Ciência e a Medição por Guy E. Abraham

📅 29 de agosto de 2026 ⏱ Leitura: 15 min ✍️ Ezequiel Miranda

O iodo, um elemento essencial para a saúde humana, foi neglicenciado pela medicina moderna nos últimos 60 anos após a Segunda Guerra Mundial. Neste artigo, exploramos a história do iodo na medicina, sua descoberta como elemento vital e os métodos inovadores para medir sua suficiência no corpo.

Baseado nos trabalhos do Dr. Guy E. Abraham — ex-professor de Obstetrícia, Ginecologia e Endocrinologia da UCLA — esta compilação reúne três artigos fundamentais que resgatam o papel do iodo como Medicina Universal, um status que manteve por mais de 100 anos antes da Segunda Guerra.

📖 Parte I: A História do Iodo na Medicina – Da Descoberta à Essentialidade

A Descoberta dos Halogênios

A história dos halogênios — cloro, bromo, iodo e flúor — é marcada por descobertas científicas revolucionárias que moldaram a medicina moderna.

Ano Evento Cientista
1809 Descoberta do cloro Gay-Lussac, Davy
1811 Descoberta do iodo em cinzas de algas marinhas Bernard Courtois
1813 Prova de que o iodo é um novo elemento Gay-Lussac
1826 Descoberta do bromo Balard
1886 Descoberta do flúor Moissan

Curiosidade histórica: Bernard Courtois, um fabricante de salitre (nitrato de potássio), descobriu o iodo acidentalmente ao adicionar excesso de ácido sulfúrico a uma suspensão de cinzas de algas. Os cristais de iodo formados foram analisados e, embora Courtois não tenha publicado seus achados, amostras chegaram às mãos de Gay-Lussac e Davy, que confirmaram a descoberta.

As Primeiras Aplicações Clínicas

O Tratamento do Bócio com Iodo

Em 1819, o médico suíço J.F. Coindet testou tintura de iodo (250 mg/dia) em 150 pacientes com bócio, obtendo sucesso em apenas uma semana. Seus resultados, publicados em 1820, marcaram o início do uso clínico do iodo.

A Relação entre Iodo e Bócio

Na década de 1850, o pesquisador Chatin estudou a correlação entre a prevalência de bócio e a concentração de iodeto no solo, água e alimentos. Suas observações foram claras:

O Iodo como Medicina Universal (1820-1940)

Durante o século XIX e início do XX, o iodo foi amplamente utilizado em preparações farmacêuticas. O crescimento foi impressionante:

Aplicações Clínicas

O iodo era prescrito para uma ampla gama de condições, incluindo:

Dosagem típica: 300 mg a 1.800 mg/dia de iodeto de potássio.

❝ Quando eu era estudante de medicina, o iodo na forma de KI era a medicina universal. Ninguém sabia o que ele fazia, mas fazia algo e fazia algo bom. ❞

— Albert Szent-Györgyi (Prêmio Nobel de Medicina, 1928).

A Descoberta da Função do Iodo na Tireoide

O Declínio do Uso do Iodo: A Iodofobia

Em 1909, Theodore Kocher — ganhador do Prêmio Nobel de Medicina por seu trabalho em cirurgia da tireoide — relatou que sofria de hipertireoidismo após ingerir iodeto. Esse relato o tornou o mais famoso iodofóbico da história médica, levando-o a se opor ao uso de iodo/iodeto para todas as formas de hipertireoidismo.

Impacto na Prática Clínica: A influência de Kocher dividiu os clínicos em dois grupos:

Resultados clínicos ignorados:

🔬 Parte II: A Busca e a Descoberta dos Hormônios Tireoidianos

Os Primeiros Relatos de Hipotireoidismo

Em 1874, Sir William W. Gull publicou suas observações sobre 5 mulheres com hipotireoidismo, que ele chamou de mixedema associado a um "estado cretinoide". Os sintomas incluíam:

Na época, a condição era considerada incurável e de etiologia desconhecida.

O Primeiro Implante de Glândula Tireoide

Em 1890, Betancourt (Lisboa, Portugal) relatou o primeiro implante bem-sucedido de glândula tireoide de ovelha em uma paciente com mixedema. Resultados observados:

A Descoberta dos Hormônios Tireoidianos

Ano Evento
1891 George R. Murray propôs que extratos de tireoide poderiam ser eficazes no hipotireoidismo.
1895 Bauman mediu grandes quantidades de iodo ligado a proteínas na tireoide.
1915 Kendall isolou a tiroxina em forma cristalina.
1926 Harrington corrigiu a estrutura da tiroxina para tironina com 4 átomos de iodo.
1927 Harrington sintetizou a tiroxina a partir de tirosina iodada (mistura racêmica).
1949 Chalmers desenvolveu um método para sintetizar L-tiroxina pura.
1952 Isolamento da L-triiodotironina (L-T3), 3-4 vezes mais potente que a L-T4.

Detalhes da Síntese:

A Padronização dos Extratos Tireoidianos

A Fraude dos Extratos Tireoidianos (1963)

Em 1963, um lote de tireoide dessecada foi distribuído para a Europa e EUA, mas não continha hormônio tireoidiano, apenas iodo. Consequências:

❝ A administração de tiroxina não alivia a névoa cerebral da privação de iodo. ❞

— Derry DM (2001).

🧪 Parte III: Medição de Níveis de Iodeto Urinário por Eletrodo Seletivo de Íons

O Problema da Deficiência de Iodo

Segundo o NHANES III (1988-1994), 15% das mulheres adultas nos EUA são deficientes em iodo, com níveis urinários abaixo de 50 µg/L (padrão da OMS). Isso significa que 1 em cada 7 mulheres que entram em um consultório médico pode estar deficiente em iodo.

Problema atual: Médicos raro solicitam exames de iodo urinário, mesmo em pacientes com bócio simples e hipotireoidismo.

Evidências preocupantes:

O Objetivo do Estudo

Desenvolver um método simples, rápido e acessível para medir níveis de iodeto urinário em consultórios médicos, usando:

A Metodologia Inovadora

Princípio do ISE

O iodeto urinário é medido pela força eletromotriz (FEM) gerada no eletrodo seletivo de iodeto. Há uma relação linear entre o logaritmo da concentração de iodeto e a FEM gerada.

O Desafio do Cloreto

A concentração de cloreto na urina é 1 milhão de vezes maior que a de iodeto. O cloreto causa interferência significativa na medição direta de iodeto.

A Solução: Cromatografia com Resina SAX

Resina: Strong Anion Exchange (SAX) com base de estireno-divinilbenzeno (SDB).

Eluição: Uso de nitrato de sódio (NaNO₃) 5M para isolar o iodeto.

Vantagens:

O Teste de Carga de Iodo

Objetivo: Avaliar a suficiência de iodo em todo o corpo humano (não apenas na tireoide).

Metodologia: Administração de Iodoral® (12,5 mg de iodo/iodeto por comprimido) e coleta de urina de 24 horas antes e após a ingestão.

📊 Tabela 1: Excreção Urinária de Iodeto em 5 Sujeitos (1 Comprimido/Dia)

Sujeito Sexo Idade Peso (libras) Antes Após 1 Dia Após 30 Dias
1 F 21 128 0,030 1,10 12,00
2 F 19 130 0,022 2,00 1,20
3 F 22 122 0,053 2,40 4,50
4 M 55 168 0,140 3,80 8,10
5 M 40 175 0,180 3,10 5,50
Média - 31 144,6 0,085 2,48 6,26

Resultado: Após 1 mês, excreção aumentou para 36-96% da dose ingerida (média: 50%). Sujeito #2 excretou apenas 10% (menor nível basal: 0,022 mg/24h), sugerindo papel das glândulas mamárias na retenção de iodo.

📊 Tabela 2: Excreção Urinária em 6 Sujeitos (1, 2 e 3 Comprimidos)

Sujeito Sexo Idade Peso (libras) Antes 1 Comprimido 2 Comprimidos 3 Comprimidos
1 F 42 171 0,160 2,70 4,90 14,00
2 F 51 113 0,067 2,60 5,30 9,90
3 F 42 110 0,064 3,10 6,00 6,80
4 M 51 160 0,250 2,60 6,30 11,00
5 M 63 199 0,110 3,30 6,50 7,70
6 M 70 200 0,093 2,50 5,40 7,50
Média - 53 159 0,124 2,80 5,70 9,50
DP - 20 20,5 0,047 0,14 0,35 4,60

Achado-chave: Com 3 comprimidos (37,5 mg), houve aumento de 10 vezes no coeficiente de variação (CV = 48,5%), sugerindo que o teste pode avaliar a suficiência de iodo no corpo todo.

Sujeito #3: Reteve mais iodo (apenas 6,8 mg ou 18%), sofria de FDB grave, reforçando o papel das glândulas mamárias na utilização de iodo.

Conclusões do Estudo

📚 Conclusão Geral

Os artigos de Guy E. Abraham e colaboradores resgatam a importância histórica e científica do iodo para a saúde humana.

O iodo, outrora considerado a Medicina Universal, merece ser redescoberto e reintegrado à prática médica moderna.

Referências

  1. Abraham, G.E. "The History of Iodine in Medicine: Part I: From Discovery to Essentiality." The Original Internist, Primavera de 2006.
  2. Abraham, G.E. "The History of Iodine in Medicine: Part II: The Search for and the Discovery of Thyroid Hormones." The Original Internist, 2006.
  3. Abraham, G.E., Flechas, J.D., Hakala, J.C. "Measurement of Urinary Iodide Levels by Ion-Selective Electrode: Improved Sensitivity and Specificity by Chromatography on Anion-Exchange Resin." The Original Internist, Dezembro de 2004.